Um contrato de engenharia com prazo de 3 a 5 anos, receita em reais e insumos parcialmente dolarizados é, na prática, uma posição cambial compulsória. A maioria das empreiteiras de médio porte não gerencia esse risco ativamente — e paga o preço nos ciclos de depreciação do real.

O problema estrutural

A base é simples: equipamentos importados, aço e combustíveis têm precificação parcialmente atrelada ao câmbio. Contratos com Petrobras, governo federal ou concessionárias são denominados em reais e raramente têm cláusulas de reajuste cambial automático.

Quando o real se deprecia significativamente — como ocorreu em 2024, quando o dólar foi de R$ 4,85 para R$ 6,20 entre janeiro e dezembro — a margem do contrato encolhe junto. Para contratos com margem operacional de 8% a 12%, uma variação cambial de 20% sobre insumos dolarizados que representam 30% do custo pode consumir metade do lucro previsto.

Instrumentos disponíveis

Existem mecanismos acessíveis para empresas de médio porte, mesmo sem tesouraria estruturada:

  • NDF (Non-Deliverable Forward): trava a taxa de câmbio para uma data futura, sem entrega física de divisas. Ideal para contratos com desembolsos previsíveis. Disponível em bancos de médio e grande porte.
  • Seguro de câmbio: produto menos flexível, mas mais simples para empresas sem relacionamento bancário sofisticado. Operado via seguradoras e corretoras especializadas.
  • Cláusula de variação cambial no contrato: negociada diretamente com o contratante. Funciona quando o contratante tem exposição recíproca — por exemplo, quando sua receita também tem componente em dólar.

Dimensionamento correto

Nenhum instrumento de hedge funciona sem uma base de modelagem. É preciso mapear o fluxo de insumos dolarizados mês a mês, comparar com o cronograma financeiro do contrato e dimensionar a proteção de forma proporcional ao risco real.

Proteção excessiva cria custo desnecessário. Proteção insuficiente deixa o risco descoberto. A modelagem adequada define o ponto de equilíbrio — e é o que transforma hedge em ferramenta de gestão, não em aposta.

Fontes: Banco Central do Brasil, Circular 3.691/2013 e Notas do Mercado de Câmbio; B3, Produtos Derivativos de Câmbio; dados de taxa de câmbio: BCB, série 1 (PTAX venda).
Simaco Capital

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